DESTAQUEMEIO AMBIENTE

Floresta de 700 hectares resiste entre zonas Sul e Leste de Manaus

Área da Ufam regula o microclima, protege igarapés e abriga fauna amazônica, mas sofre com isolamento e pressão urbana

Em uma Manaus que avança sobre áreas verdes e convive com os efeitos da urbanização sobre temperatura, cursos d’água e biodiversidade, uma floresta de aproximadamente 700 hectares permanece inteiramente cercada pela cidade.

O fragmento florestal está dentro do campus Senador Arthur Virgílio Filho, da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), na avenida Rodrigo Otávio. A extensão corresponde a cerca de 980 campos de futebol e reúne floresta amazônica, nascentes, igarapés e espécies nativas da fauna e da flora.

Mais do que uma grande área verde dentro de Manaus, a floresta desempenha funções ambientais que alcançam a cidade ao redor. A cobertura vegetal ajuda na regulação do microclima, reduz temperaturas, mantém a umidade do ar e protege cursos d’água contra processos de erosão e assoreamento. A biomassa também armazena carbono e contribui para a filtragem de poluentes atmosféricos.

A própria Ufam classifica a área como a maior área verde urbana de Manaus.

Floresta urbana

O fragmento integra a Área de Proteção Ambiental (APA) Manáos e está entre regiões densamente urbanizadas do Japiim, Coroado, São José e Distrito Industrial, além dos conjuntos Nova República e Eliza Miranda. Sua gestão envolve a universidade e o poder público municipal.

A localização ajuda a explicar sua importância. A floresta possui áreas de baixio, mais úmidas, e de terra firme e conserva nascentes e igarapés que participam da formação de microbacias que atravessam Manaus.

É também refúgio para animais em plena área urbana. Há registros de preguiças, pacas, macacos e sauins-de-coleira, além de camarões e caranguejos de água doce nos igarapés. Árvores, palmeiras, insetos e plantas aquáticas completam a biodiversidade documentada no campus.

Laboratório vivo

A floresta funciona ainda como um grande laboratório a céu aberto. Pesquisas são desenvolvidas por áreas como Ciências Agrárias, Ciências Biológicas, Geografia, Geologia, Engenharias Civil e Ambiental, Antropologia, Ciências Sociais, Administração e Comunicação.

Essa combinação transforma o fragmento em espaço privilegiado para estudar justamente uma das questões centrais das cidades amazônicas: como floresta e urbanização conseguem coexistir.

Cerco urbano

Mas o tamanho da área não elimina sua vulnerabilidade.

A floresta está cercada pela cidade em todas as direções e não possui corredores ecológicos remanescentes monitorados que garantam conexão com outros fragmentos. O resultado, segundo a Ufam, é uma situação extrema de isolamento genético e ecológico.

A ausência de conectividade aumenta os efeitos de borda e dificulta o deslocamento e a troca genética das populações animais e vegetais. Soma-se a isso a pressão de ocupações irregulares no entorno, apontada pela universidade como outro desafio à conservação.

Assim, os 700 hectares representam ao mesmo tempo um patrimônio ambiental de Manaus e um alerta: preservar uma floresta dentro da cidade não significa apenas impedir sua derrubada, mas garantir condições para que ela continue funcionando como ecossistema.

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