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Dia da Amazônia chega aos 19 anos entre avanços, desafios e escolhas

Queda do desmatamento e avanço da bioeconomia convivem com velhos problemas; em ano eleitoral, futuro da região também passa pelas urnas

Quando o Dia da Amazônia foi instituído oficialmente, em 2007, a região já estava no centro das preocupações ambientais do planeta. Dezenove anos depois, neste 5 de setembro de 2026, há conquistas concretas a reconhecer, mas também desafios que mostram o tamanho da distância entre preservar uma das maiores riquezas naturais do mundo e transformar essa riqueza em desenvolvimento para quem vive nela.

A data foi criada pela Lei nº 11.621, sancionada em dezembro de 2007, estabelecendo o 5 de setembro como momento dedicado à reflexão sobre a importância da Amazônia.

Desde então, muita coisa mudou.

A floresta passou a ocupar posição ainda mais estratégica no debate mundial sobre mudanças climáticas. O Brasil ampliou sua capacidade de monitoramento por satélite, criou mecanismos de financiamento para conservação, desenvolveu novas políticas de combate ao desmatamento e colocou temas como bioeconomia e valorização da biodiversidade no centro das discussões sobre o futuro da região.

Ao mesmo tempo, antigas contradições permanecem.

Floresta preservada

Um dos resultados mais importantes aparece nos índices de desmatamento.

Em 2007, quando a data foi criada, a Amazônia Legal perdeu cerca de 11,6 mil quilômetros quadrados de floresta. Depois de uma redução expressiva, os índices voltaram a crescer nos anos seguintes e superaram 13 mil quilômetros quadrados em 2021.

Nos últimos anos, a tendência voltou a ser de queda.

Em 2025, o sistema Prodes, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), registrou 5.731 quilômetros quadrados de desmatamento na Amazônia Legal, menos da metade do observado em 2007.

Os alertas mais recentes também apontaram redução.

É, sem dúvida, algo a comemorar. Mas 5,7 mil quilômetros quadrados de floresta derrubada em um único ano continuam sendo um número suficientemente grande para impedir qualquer sensação de missão cumprida.

Garimpo ilegal, exploração clandestina de madeira, queimadas e ocupação irregular continuam pressionando diferentes áreas da região.

Novos caminhos

Outro avanço importante destes 19 anos foi a mudança na maneira de discutir a economia amazônica.

A ideia de que a região precisa escolher entre preservar ou desenvolver começa, lentamente, a perder espaço.

A bioeconomia ganhou relevância e passou a ser tratada como uma possibilidade concreta de transformar biodiversidade, conhecimento científico e saberes tradicionais em produtos, tecnologia, emprego e renda.

O Fundo Amazônia, criado em 2008, também se consolidou como importante instrumento de financiamento de projetos de prevenção e combate ao desmatamento, conservação e desenvolvimento sustentável.

A tecnologia avançou. Satélites permitem identificar rapidamente áreas desmatadas ou sob pressão, dando aos órgãos de fiscalização instrumentos que não existiam na mesma dimensão quando o Dia da Amazônia foi instituído.

Há mais conhecimento, mais capacidade de monitoramento e maior consciência sobre o valor econômico de manter a floresta em pé.

Mas ainda falta transformar essa nova visão em escala econômica suficiente para mudar a realidade de milhões de amazônidas.

Velhas diferenças

Esse talvez seja o maior paradoxo da Amazônia.

A região que concentra uma das maiores riquezas ambientais do planeta ainda convive com graves deficiências de saneamento, saúde, educação, infraestrutura, energia e conectividade.

No interior, distâncias gigantescas aumentam o preço dos alimentos, dos combustíveis, das obras e dos serviços públicos. Muitas comunidades continuam dependendo quase exclusivamente dos rios para se deslocar.

Ciência e inovação avançam, mas grande parte da tecnologia utilizada para transformar recursos amazônicos em produtos de maior valor ainda é desenvolvida fora da região.

A Amazônia fornece biodiversidade, minerais, água e conhecimento tradicional. O desafio é fazer com que uma parcela maior da riqueza produzida a partir desses recursos permaneça no próprio território.

Preservar uma floresta habitada exige cuidar também de quem mora nela.

Novo desafio

Desde a criação do Dia da Amazônia, outra ameaça adquiriu proporções ainda maiores: as mudanças climáticas.

Secas severas, cheias extremas, incêndios e temperaturas elevadas começaram a mostrar que a região não é apenas parte da solução climática mundial. Ela própria está vulnerável aos efeitos da alteração do clima.

No Amazonas, os extremos dos rios nos últimos anos trouxeram consequências econômicas e sociais muito concretas.

Comunidades ficaram isoladas, atividades produtivas foram prejudicadas e a navegação enfrentou dificuldades.

A discussão sobre a Amazônia, portanto, passou a envolver não apenas conservação, mas adaptação.

Hora de escolher

É nesse ponto que o Dia da Amazônia de 2026 encontra uma circunstância especialmente importante.

Daqui a menos de um mês, em 4 de outubro, milhões de brasileiros irão às urnas para escolher presidente da República, governadores, senadores, deputados federais e estaduais.

Para a Amazônia, essas escolhas não são distantes do debate ambiental.

Os governantes e parlamentares eleitos terão poder para decidir sobre recursos destinados à fiscalização ambiental, pesquisa científica, infraestrutura, saneamento, conectividade, segurança de fronteira, mineração, desenvolvimento do interior e incentivo à bioeconomia.

Também estarão nas mesas onde serão tomadas decisões sobre questões fundamentais para o Amazonas, como a Zona Franca de Manaus e as políticas de desenvolvimento regional.

Por isso, falar sobre o Dia da Amazônia em pleno período eleitoral significa também perguntar quais projetos para a região estão sendo apresentados aos eleitores.

Não basta aos candidatos defender a floresta em discursos.

É preciso explicar como pretendem protegê-la sem condenar a população à ausência de oportunidades. Como transformar biodiversidade em conhecimento e riqueza. Como levar desenvolvimento ao interior sem repetir modelos predatórios. Como garantir educação, saúde, saneamento e infraestrutura a uma população que vive em condições geográficas muito diferentes das encontradas no restante do país.

A eleição também será uma escolha entre diferentes maneiras de responder a essas perguntas.

O que celebrar

Dezenove anos depois da instituição do Dia da Amazônia, existem razões para comemorar.

O Brasil consegue enxergar melhor o que acontece na floresta. O desmatamento voltou a cair. Existem mecanismos de financiamento ambiental mais robustos. A bioeconomia ganhou espaço e a compreensão sobre a importância estratégica da Amazônia avançou dentro e fora do país.

Mas talvez o maior desafio continue praticamente intacto: transformar a importância mundial da região em qualidade de vida para seus habitantes.

O sucesso de qualquer política amazônica não pode ser medido somente pela quantidade de árvores preservadas. Também precisa ser percebido na escola que funciona, no posto de saúde que atende, no emprego criado, na ciência produzida na região e nas oportunidades oferecidas a quem decidiu construir a vida aqui.

Neste 5 de setembro, celebrar a Amazônia significa reconhecer o que avançou sem esconder aquilo que ainda falta fazer.

E, em 2026, significa algo mais.

No próximo 4 de outubro, cada eleitor também estará ajudando a escolher qual projeto de Amazônia terá condições de avançar nos próximos anos.

Porque a floresta é resultado de decisões ambientais, econômicas e sociais.

E muitas dessas decisões começam na política.

Inclusive na urna.

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