DESTAQUEMANAUS

Manaus quer entrar no jogo da política industrial

Renato Junior anuncia secretaria para destravar investimentos e cobra articulação entre Prefeitura, Suframa, Estado e União pelo Distrito Industrial.

A Prefeitura de Manaus quer deixar de ser apenas espectadora das decisões que envolvem o Polo Industrial de Manaus e assumir um papel mais direto na atração e na instalação de novos empreendimentos.

O movimento foi anunciado pelo prefeito Renato Junior durante a reunião do Conselho de Administração da Suframa (CAS), realizada nesta sexta-feira (14), quando confirmou que pretende enviar à Câmara Municipal, em setembro, a proposta de criação da primeira Secretaria Municipal de Desburocratização Industrial.

A ideia é concentrar em uma única estrutura municipal processos, informações e articulações necessárias para empresas interessadas em se instalar na capital.

Mais do que a criação de uma nova secretaria, porém, o anúncio expõe um problema antigo: embora a Zona Franca de Manaus seja o principal motor econômico do Amazonas, a relação entre quem aprova projetos, quem cuida da infraestrutura, quem licencia, quem oferece incentivos e quem administra a cidade nem sempre funciona de forma coordenada.

É justamente esse ponto que Renato Junior pretende transformar em bandeira.

“Chegou a hora da Prefeitura de Manaus dar as mãos com a Suframa, a Suframa dar as mãos com o Governo do Estado, o Governo do Estado dar as mãos com o Governo Federal”, afirmou.

Um balcão municipal para a indústria

A proposta da nova secretaria parte de uma reclamação recorrente do setor produtivo: a quantidade de órgãos, licenças, informações e etapas necessárias para colocar um investimento de pé.

Na prática, a Prefeitura pretende criar uma espécie de porta de entrada para orientar empresas e acelerar procedimentos que estejam sob responsabilidade municipal.

“Para que as indústrias que querem se instalar em Manaus possam encontrar na prefeitura um canal de desburocratização e condução”, disse o prefeito durante o CAS.

A eficácia da estrutura, no entanto, dependerá menos do nome da secretaria e mais de sua capacidade de integrar áreas como licenciamento urbano, meio ambiente, infraestrutura, mobilidade, uso do solo e serviços municipais.

Também dependerá da articulação com órgãos que estão fora da Prefeitura.

A maior parte da política industrial da Zona Franca passa pela Suframa e pelo governo federal, enquanto questões de infraestrutura e logística podem envolver Estado, União e concessionárias.

Por isso, o anúncio cria uma expectativa que precisará ser medida pela capacidade real de reduzir prazos e simplificar processos.

Gargalo visível

Ao defender uma nova relação institucional, Renato Junior concentrou parte de sua fala na infraestrutura do Distrito Industrial.

O problema é conhecido por quem trabalha na região.

Buracos, drenagem deficiente, iluminação, mobilidade, acessos e congestionamentos fazem parte da rotina de milhares de trabalhadores que se deslocam diariamente para as fábricas.

“O que não dá é para centenas e milhares de trabalhadores todos os dias acordarem de madrugada para pegar uma rota e ter problemas em infraestrutura”, afirmou o prefeito.

Renato também reconheceu que a solução não depende exclusivamente do município.

Essa divisão de responsabilidades é justamente uma das razões pelas quais intervenções no Distrito costumam avançar de forma lenta ou fragmentada.

O ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, reforçou a necessidade de planejamento de longo prazo.

Segundo ele, investimento em infraestrutura precisa ser tratado como política de Estado, e períodos prolongados de abandono tornam a recuperação mais cara e mais difícil.

“Nós juntos somos capazes de fazer. Sozinhos não faremos”, resumiu.

Mais projetos, mais pressão sobre a cidade

A discussão acontece em um momento de novos investimentos no Polo Industrial.

Durante a reunião do CAS, foram apresentados 25 projetos industriais e de serviços.

Oito projetos de implantação somam cerca de R$ 202 milhões em investimentos, com faturamento projetado de R$ 1,2 bilhão e potencial de criação de 560 empregos.

Outros 17 projetos de diversificação, ampliação e atualização industrial representam aproximadamente R$ 133 milhões, também com faturamento estimado em R$ 1,2 bilhão e previsão de 299 novos postos de trabalho.

No total, os projetos representam cerca de R$ 335 milhões em investimentos e potencial de 859 empregos.

Os números mostram uma contradição que acompanha Manaus há décadas.

O Polo Industrial cresce, atrai novos projetos e mantém peso decisivo na economia regional, mas a infraestrutura urbana ao redor das fábricas nem sempre cresce na mesma velocidade.

É nessa diferença que a Prefeitura pretende entrar.

Não falta área, falta coordenação

Ao tratar da expansão física do Distrito Industrial, o superintendente da Suframa, Leopoldo Montenegro, afirmou que existem áreas disponíveis para receber novos empreendimentos.

“Não falta área. É capaz de abrigar novos projetos industriais. Nós precisamos ter bons projetos industriais”, declarou.

A frase reforça uma questão central.

Se há espaço físico para expansão e interesse de novas empresas, a competição passa também pela capacidade de oferecer segurança, infraestrutura e rapidez na instalação dos empreendimentos.

É nesse ponto que uma estrutura municipal de desburocratização pode ganhar importância.

Para uma empresa que avalia onde instalar uma nova planta, incentivos fiscais são apenas parte da decisão.

Prazo de licenciamento, qualidade dos acessos, oferta de energia, mobilidade dos trabalhadores, segurança jurídica e previsibilidade administrativa também pesam.

Prefeitura assume uma parte da conta

Ao anunciar a secretaria, Renato Junior sinaliza que pretende associar sua gestão diretamente à agenda industrial de Manaus.

É uma mudança relevante porque, historicamente, o debate sobre a Zona Franca costuma ficar concentrado entre Suframa, governo federal, bancada parlamentar e setor empresarial.

A Prefeitura aparece com frequência quando o assunto chega à infraestrutura urbana, mas participa menos da formulação da política industrial.

A nova secretaria tenta reduzir essa distância.

O desafio será provar que a estrutura não se transformará apenas em mais uma camada administrativa dentro da própria burocracia que promete combater.

Para funcionar, terá de fazer justamente o contrário: reduzir caminhos, encurtar prazos e resolver conflitos entre órgãos.

União institucional testada

O discurso de cooperação entre Prefeitura, Estado, Suframa e governo federal é recorrente no Amazonas.

A diferença estará na execução.

Renato Junior afirmou que pretende afastar “egos, vaidades e barreiras” das discussões sobre o Distrito Industrial.

A declaração é politicamente forte porque reconhece um problema que frequentemente aparece nos bastidores: disputas institucionais e partidárias podem atrasar soluções para questões que deveriam ter tratamento técnico.

Ao mesmo tempo, cria uma cobrança direta sobre a própria Prefeitura.

Se o município quer assumir uma posição mais ativa na política industrial, terá de mostrar resultados concretos.

O anúncio de uma secretaria pode ser o começo.

Mas o que interessa às empresas é saber quanto tempo será reduzido em um processo de instalação.

E o que interessa ao trabalhador é saber se a rota chegará sem enfrentar ruas esburacadas, alagamentos ou gargalos diários.

Entre uma coisa e outra está o verdadeiro teste da proposta.

Manaus não precisa apenas de mais uma estrutura administrativa.

Precisa de uma política municipal capaz de entender que o Polo Industrial não termina no portão das fábricas.

Ele começa e termina na cidade.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Pular para o conteúdo