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Nova cozinha muda rotina de garis nas ruas de Manaus

Estrutura da Semulsp começa a entregar refeições nas frentes de trabalho e deve produzir até 1,5 mil almoços por dia.

Para muita gente, levar almoço para o trabalho significa apenas preparar uma marmita.

Para quem começa a jornada ainda de madrugada, passa horas debaixo do sol e trabalha em diferentes pontos da cidade, a rotina pode ser mais complicada: é preciso cozinhar cedo, transportar a comida e torcer para que ela resista ao calor de Manaus até a hora do almoço.

É essa rotina que começou a mudar para os garis da capital.

A Secretaria Municipal de Limpeza Urbana (Semulsp) iniciou nesta sexta-feira (14) a entrega de refeições preparadas na nova Cozinha da Gente “Rosilene Rocha”, instalada na sede do órgão.

As primeiras refeições foram distribuídas às 11h30 para equipes que atuavam no bairro Redenção e no Distrito Industrial.

A proposta é que a comida seja preparada no mesmo dia e levada diretamente às frentes de serviço.

Na prática, isso significa que os trabalhadores deixam de depender da refeição feita horas antes em casa ou de procurar, durante o intervalo, algum lugar para almoçar.

Cuidado com quem está na rua

O secretário municipal de Limpeza Urbana, Sabá Reis, afirma que a iniciativa foi pensada como parte de uma política de valorização dos trabalhadores da limpeza pública.

“Queremos que nossos garis recebam uma comida boa, de qualidade, bem preparada, saborosa e feita com carinho. Estamos falando de homens e mulheres que acordam muito cedo e enfrentam sol e chuva todos os dias para cuidar de Manaus”, afirmou.

Segundo o secretário, a proposta vai além do fornecimento da alimentação.

“Esse cuidado também precisa chegar a quem cuida da nossa cidade. Essa cozinha foi pensada para eles e queremos que cada refeição chegue à ponta recheada também de respeito, reconhecimento e muito amor”, disse Sabá Reis.

A fala traduz a intenção política da iniciativa, mas o impacto mais evidente aparece na rotina dos próprios trabalhadores.

Menos uma tarefa antes do expediente

Jelison do Nascimento, um dos garis atendidos pela ação, resumiu a diferença de forma direta: não precisar acordar ainda mais cedo apenas para preparar a marmita.

Para quem já inicia a jornada nas primeiras horas do dia, esse tempo a mais significa descanso.

E o benefício continua na hora do almoço, quando a preocupação passa a ser menor com a conservação dos alimentos.

Lidiane Marques da Cruz conta que já viveu uma situação comum a muitos trabalhadores que levam comida de casa: a marmita estragar antes do intervalo.

No calor de Manaus, alimentos preparados de madrugada podem permanecer horas armazenados em condições nem sempre adequadas.

“Às vezes chegava a hora do almoço e a comida já estava azeda”, relatou.

Agora, segundo ela, a expectativa é receber uma refeição preparada no próprio dia, com mais segurança.

Alimentação também pesa no orçamento

Outro ponto levantado pelos trabalhadores está no bolso.

Ariel Cristine Souza Dantas chamou atenção para uma realidade que ultrapassa o ambiente de trabalho: o preço dos alimentos limita a variedade das refeições dentro de casa.

Nem sempre é possível manter um cardápio diversificado quando o orçamento é apertado.

“Muitas vezes a proteína acaba sendo ovo ou frango, porque é o que cabe no bolso”, afirmou.

A cozinha, nesse sentido, também passa a representar uma refeição que deixa de sair diretamente do orçamento doméstico do trabalhador.

Além do custo, há a possibilidade de maior variedade alimentar.

É um impacto difícil de medir apenas pelo número de marmitas produzidas, mas facilmente percebido no fim do mês.

Estrutura para 1,5 mil refeições

A Cozinha da Gente foi instalada na sede da Semulsp e tem capacidade projetada para produzir aproximadamente 1,5 mil refeições por dia.

A estrutura conta com fogões industriais, novos freezers, sistemas de água quente e fria e ambiente climatizado para preparação e conservação dos alimentos.

A expectativa é ampliar gradualmente a produção até atender diferentes equipes espalhadas pela cidade.

Sabá Reis afirma que a implantação da cozinha integra um conjunto de medidas voltadas à melhoria das condições de trabalho.

“Quando a gente oferece uma alimentação de qualidade no próprio local de trabalho, estamos dizendo para cada gari que o trabalho dele importa, que ele é fundamental para Manaus”, afirmou.

A iniciativa, porém, também cria uma responsabilidade permanente para a administração.

Produzir até 1,5 mil refeições diariamente exige controle sanitário, qualidade dos alimentos, transporte adequado e regularidade na entrega.

O resultado da política deverá ser medido não apenas pelo número de refeições produzidas, mas pela capacidade de manter o serviço funcionando com qualidade ao longo do tempo.

Uma cozinha com nome e memória

A estrutura recebeu o nome de Rosilene Rocha, servidora da Semulsp que morreu no ano passado.

A homenagem adiciona uma dimensão afetiva ao espaço.

O nome de uma trabalhadora da própria secretaria passa a identificar uma estrutura destinada a atender outros trabalhadores.

É um detalhe simbólico, mas que conversa com a própria finalidade do projeto: olhar para quem normalmente aparece na cidade apenas pelo serviço que executa.

Os garis fazem parte da paisagem cotidiana de Manaus.

Estão nas ruas depois de festas, temporais, grandes eventos, mutirões e também nos dias comuns, quando a cidade simplesmente acorda e encontra praças, avenidas e calçadas limpas.

O trabalho quase sempre é percebido quando deixa de ser feito.

Quem o executa, nem sempre.

Uma política que precisa se provar no cotidiano

A nova cozinha não resolve todos os desafios enfrentados por quem trabalha na limpeza urbana.

Equipamentos, segurança, transporte, proteção contra o calor e melhores condições de trabalho continuam sendo questões fundamentais.

Mas a alimentação toca uma necessidade básica e diária.

Se mantida com regularidade e qualidade, a iniciativa pode alterar uma parte concreta da jornada dos garis.

Para o trabalhador, o resultado talvez seja mais simples do que qualquer discurso institucional.

É poder sair de casa sem carregar a preocupação com a marmita preparada de madrugada.

E saber que, quando chegar a hora do almoço, haverá uma refeição quente esperando no lugar onde o trabalho estiver acontecendo.

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