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Romaria das Águas transforma o rio em caminho de fé

Peregrinação partiu pela primeira vez da Ponta Negra e segue até Parintins, unindo devoção a Nossa Senhora do Carmo, cultura amazônica e defesa das águas

Quando a noite caiu sobre o rio Negro, a fé deixou a terra firme. Entre orações, música e despedidas, romeiros iniciaram nesta segunda-feira (13) uma viagem que transforma as águas da Amazônia em caminho de peregrinação.

A 17ª Romaria das Águas partiu de Manaus em direção a Parintins, onde a chegada será marcada pela procissão fluvial em homenagem a Nossa Senhora do Carmo, padroeira da cidade. A celebração integra a programação religiosa dedicada à Virgem do Carmelo, realizada anualmente no município entre os dias 6 e 16 de julho.

Pela primeira vez, a cerimônia oficial de saída ocorreu na Praia da Ponta Negra. Fiéis acompanharam apresentações culturais, momentos de oração, show de evangelização e o Terço Jovem antes da bênção que marcou o início da travessia. Os passageiros inscritos para a viagem embarcaram pelo Porto de Manaus, o Roadway.

Mais do que uma procissão entre duas cidades, a romaria é uma celebração que só poderia ter nascido na Amazônia. Aqui, o rio não aparece apenas como paisagem. Ele é estrada, sustento, memória, comunicação entre comunidades e parte inseparável da experiência religiosa.

Uma promessa que ganhou o Amazonas

A Romaria das Águas nasceu em 2009, a partir de uma promessa do artista plástico Juarez Lima pela recuperação do mestre Jair Mendes, um dos nomes históricos do Festival Folclórico de Parintins.

O gesto de gratidão cresceu, reuniu novas embarcações e tornou-se uma das principais manifestações de fé do calendário amazonense. Juarez Lima morreu em 2024, mas a celebração passou a ser conduzida por seus filhos, Thiago Lima e Juarez Filho, responsáveis pela continuidade do projeto idealizado pelo pai.

A edição de 2026 carrega, por isso, um significado especial. Ao manter a viagem, a família preserva não apenas uma promessa religiosa, mas uma tradição construída no encontro entre o catolicismo popular, a arte de Parintins e a vida ribeirinha.

A romaria reúne milhares de pessoas de forma direta e indireta, incluindo fiéis de Manaus, Itacoatiara, Barreirinha, Mocambo e comunidades situadas ao longo da rota. A organização estima que cerca de 70 mil pessoas sejam alcançadas pela programação e pelas manifestações realizadas no percurso e na chegada a Parintins.

foto de edição anterior/chegada em Parintins

Fé celebrada dentro da embarcação

Durante a viagem, a embarcação deixa de ser apenas meio de transporte e assume a função de templo.

A programação desta terça-feira (14) inclui missas, momentos de oração, Terço Mariano, apresentações musicais e a passagem da imagem de Nossa Senhora do Carmo pelos diferentes espaços do barco. Também estão previstos almoço de confraternização e atividades entre os peregrinos.

A travessia simboliza a forma como a religião se adapta ao território amazônico. Em regiões onde comunidades são separadas por horas ou dias de navegação, o barco transporta pessoas, mercadorias, notícias e também práticas de fé.

A imagem de Nossa Senhora do Carmo viaja pelo mesmo rio utilizado por trabalhadores, estudantes, pescadores e famílias que dependem diariamente das embarcações. A solenidade religiosa, desse modo, encontra-se com a rotina de quem aprendeu a medir distâncias não apenas em quilômetros, mas em horas de viagem.

Parintins prepara recepção nas águas

A chegada a Parintins está prevista para a tarde desta terça-feira. As embarcações participantes serão recebidas para o cortejo fluvial, que terá como ponto central a imagem monumental de Nossa Senhora do Carmo.

A programação prevê a elevação da imagem, cânticos, fogos, homenagens culturais e passagem pela Cidade Garantido. Na Praça Digital, a procissão receberá uma saudação com elementos da cultura do Boi Caprichoso. A chegada ao porto está prevista para o início da noite, seguida da bênção de encerramento.

A presença dos dois bois na linguagem simbólica da celebração demonstra como, em Parintins, a religiosidade e a cultura popular não caminham separadas. A mesma cidade que divide o coração entre Caprichoso e Garantido se reúne diante de sua padroeira.

A romaria, portanto, ultrapassa os limites de uma agenda exclusivamente religiosa. Ela mobiliza turismo, transporte fluvial, comércio, alimentação, artistas, músicos e trabalhadores envolvidos na preparação das embarcações e da recepção.

A água também pede proteção

Ao navegar pela Amazônia, a celebração chama atenção para a responsabilidade de proteger os rios. A programação da Romaria das Águas incorporou ao longo dos anos debates sobre preservação ambiental, cuidado com a Casa Comum e acesso das populações amazônicas à água de qualidade.

A mensagem adquire força diante das contradições da região. Embora a Amazônia concentre a maior bacia hidrográfica do planeta, comunidades ribeirinhas ainda convivem com dificuldades de acesso à água potável e ao saneamento. Igarapés urbanos recebem lixo e esgoto, enquanto garimpo, desmatamento e atividades econômicas ameaçam rios e populações que dependem deles.

Nesse contexto, rezar sobre as águas também pode ser entendido como um pedido de cuidado.

A procissão lembra que os rios não são corredores vazios entre uma cidade e outra. São territórios de vida, cultura, trabalho e espiritualidade. Protegê-los é uma exigência ambiental, mas também uma forma de preservar a identidade das populações amazônicas.

Quando a embarcação chegar a Parintins, a viagem terá cumprido seu percurso religioso. A imagem será recebida, as luzes se refletirão no rio e os romeiros desembarcarão.

Mas a Romaria das Águas deixa uma mensagem que permanece depois da festa: na Amazônia, a fé navega porque o rio conduz a vida.

Com informações da organização da Romaria das Águas e da Arquidiocese de Manaus

Foto: Arquidiocese e organização do evento

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