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Documentário sobre Santa Etelvina transforma memória popular em cinema amazônico

Produção rodada ao longo de dois anos estreia em cemitério de Manaus e conecta fé, feminicídio e memória coletiva

A história de uma jovem assassinada no início do século passado, transformada ao longo das décadas em símbolo de devoção popular em Manaus, chega agora às telas em uma produção que mistura memória, documento histórico e linguagem cinematográfica. O documentário “Etelvina – A Ressignificação da Tragédia” estreia nesta sexta-feira (15), às 20h, no Cemitério São João Batista, espaço diretamente ligado à construção simbólica da narrativa e à devoção em torno de Etelvina de Alencar.

A produção amazonense levou cerca de dois anos para ser concluída e reuniu aproximadamente 120 horas de material bruto. Parte importante das gravações ocorreu justamente no Dia de Finados, em 2024 e 2025, quando dezenas de pessoas aceitaram compartilhar relatos, promessas, memórias e experiências ligadas à figura conhecida popularmente como “Santa Etelvina”.

Antes da exibição principal, o público também poderá assistir novamente ao filme “Ária – Fazendo a Vida Viver”, obra anterior do diretor Cleinaldo Marinho sobre a trajetória da artista amazonense Ária Ramos.

Memória popular

A trajetória de Etelvina de Alencar atravessa mais de um século da história de Manaus. Assassinada em 1901, na antiga Colônia Campos Sales — área onde hoje fica o bairro Santa Etelvina, na zona Norte da capital —, a jovem acabou incorporada ao imaginário popular da cidade após relatos de milagres, promessas alcançadas e manifestações de fé popular.

Mesmo sem reconhecimento oficial da Igreja Católica, o culto à jovem permanece vivo em diferentes pontos da cidade, especialmente no Cemitério São João Batista, onde fiéis costumam deixar velas, flores e pedidos.

O filme parte justamente dessa relação entre memória coletiva e religiosidade popular para construir sua narrativa.

Linguagem híbrida

Dirigido por Cleinaldo Marinho, o documentário utiliza formato de docudrama, combinando depoimentos reais, dramatizações e pesquisa histórica.

Após a primeira etapa de gravações, a equipe mergulhou nos relatos coletados para definir os caminhos narrativos da produção. A segunda fase já contou com roteiro estruturado, elenco definido e uma locação preparada para recriar cenograficamente a antiga Colônia Campos Sales.

Com recursos enxutos, a equipe apostou em uma construção cinematográfica artesanal, apoiada em pesquisa realizada em arquivos da Biblioteca Estadual, da Hemeroteca da Biblioteca Nacional e em registros históricos do Tribunal de Justiça do Amazonas.

Segundo Cleinaldo Marinho, o objetivo da obra nunca foi tratar a devoção popular como curiosidade folclórica.

“O documentário não trata o culto como curiosidade folclórica, mas como dado histórico, uma forma de memória coletiva que se torna contemporânea diante de casos de feminicídio que não podem ser negligenciados pelas autoridades”, afirma o diretor.

Debate atual

Embora mergulhe em uma história do início do século XX, o documentário estabelece conexões diretas com discussões atuais sobre feminicídio e violência contra a mulher.

A produção parte da ideia de que a morte de Etelvina não pode ser vista apenas como episódio isolado, mas como reflexo de estruturas históricas e sociais que atravessam gerações.

“O filme reconhece dor e fé como dimensões que muitas vezes caminham juntas. A dor da tragédia é o ponto de partida. É a partir dela que surge a fé, como forma de busca por sentido diante do que escapa à compreensão humana”, destaca Marinho.

Cinema amazônico

A estreia no Cemitério São João Batista também simboliza um movimento crescente do audiovisual amazonense de ocupar espaços alternativos e aproximar o cinema das experiências culturais e históricas da própria Amazônia.

A atriz Rosana Neves interpreta Etelvina no longa e divide cena com artistas amazonenses como Ádria Alves, Larissa Baraúna, Márcio Braz, Jean Melo, Denis Carvalho, Dimas Mendonça e Fagner Coelho.

O projeto foi contemplado pelo Edital de Audiovisual da Lei Paulo Gustavo, via Concultura, com recursos do Governo Federal.

Fotos: Divulgação

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