Amazonense vai às urnas sob a fumaça das queimadas
No domingo decisivo para o futuro político do estado, qualidade do ar varia de moderada a péssima; nenhum sensor consultado em Manaus indicava condições boas
O Amazonas chegou ao segundo turno das eleições, neste domingo (25), convivendo com uma realidade que ultrapassa as disputas políticas: a fumaça das queimadas continua presente no ar, expondo a população aos efeitos de uma crise ambiental que já comprometeu aulas, atividades ao ar livre e serviços em diferentes municípios.
Enquanto mais de 2,8 milhões de eleitores estão aptos a escolher o próximo governador e o presidente da República, os indicadores ambientais mostram que a poluição permanece como um problema concreto para quem precisa sair de casa, inclusive para exercer o direito ao voto.
Na manhã deste domingo, nenhum dos sensores consultados em Manaus registrava qualidade do ar considerada boa. No interior, a situação era ainda mais preocupante, com municípios apresentando concentrações elevadas de partículas finas provenientes da fumaça.
O contraste é significativo: no mesmo dia em que a população decide os rumos da administração pública, um dos problemas mais graves enfrentados pelo Amazonas continua visível no céu e presente na rotina dos moradores.
Poluição atinge capital e interior
Dados do Sistema Eletrônico de Vigilância Ambiental (Selva), da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), consultados por volta das 7h45, indicavam diferentes níveis de comprometimento da qualidade do ar.
Em Barreirinha, no Baixo Amazonas, a concentração de partículas finas chegou a 198,6 microgramas por metro cúbico (µg/m³), índice classificado como péssimo.
Em Parintins, o registro chegou a 75,7 µg/m³, na faixa muito ruim, enquanto Itacoatiara apresentou concentração de 77,2 µg/m³.
Na capital, os sensores instalados nos bairros Coroado, na zona Leste, e Petrópolis, na zona Centro-Sul, registravam 46,3 e 46,5 µg/m³, respectivamente. Ambos estavam na faixa moderada.
Pela classificação utilizada pelo Selva, a qualidade do ar é considerada boa quando a concentração de partículas finas não ultrapassa 25 µg/m³.
Embora os registros variem entre localidades, eles mostram que a redução da intensidade da fumaça em determinados bairros não significa o fim da exposição à poluição.
As medições representam condições observadas em pontos e horários específicos e podem mudar ao longo do dia.
Menos queimadas, mas o ar continua comprometido
Os indicadores de incêndios apresentaram redução na segunda metade de outubro, mas a melhora no número de focos não foi suficiente para eliminar a poluição atmosférica.
De acordo com dados do Painel do Fogo, do Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam), foram registrados 1.348 focos de calor entre os dias 1º e 11 de outubro. No período de 11 a 21, o total caiu para 461, uma redução de 65,8%.
A diminuição não significa que os efeitos das queimadas tenham desaparecido. A fumaça pode continuar sendo transportada pelos ventos e permanecer sobre áreas urbanas, dependendo das condições atmosféricas e da persistência de incêndios em outras localidades.
Nas últimas semanas, a crise levou à suspensão de atividades escolares e ao cancelamento das comemorações pelos 357 anos de Manaus, diante dos riscos associados à exposição prolongada ao ar contaminado.
O impacto na saúde não termina com a fumaça visível
As partículas finas presentes na fumaça das queimadas, conhecidas como PM2,5, possuem dimensões suficientemente pequenas para penetrar profundamente no sistema respiratório.
A exposição pode provocar irritação nos olhos e na garganta, agravar doenças respiratórias e representar riscos maiores para crianças, idosos, gestantes e pessoas com problemas cardíacos ou pulmonares.
Para quem precisa enfrentar filas ou percorrer longas distâncias até o local de votação, a atenção deve ser redobrada, especialmente nas cidades com os piores indicadores ambientais.
Entre as medidas de proteção estão evitar esforços físicos desnecessários, manter a hidratação e utilizar máscaras adequadas, como as do tipo PFF2, quando houver exposição à fumaça.
Uma questão que permanece depois das eleições
O segundo turno definirá quem estará à frente do Governo do Amazonas nos próximos quatro anos. Omar Aziz (PSD) e Professora Maria do Carmo (PL) disputam o comando de um estado onde os desafios ambientais estão diretamente ligados à saúde, à economia, à educação e à qualidade de vida.
Independentemente do resultado, o próximo governo encontrará uma realidade que exige políticas permanentes de prevenção de incêndios, fiscalização ambiental, monitoramento da qualidade do ar e proteção das populações mais vulneráveis.
A sucessão de episódios de fumaça também evidencia a necessidade de respostas coordenadas entre municípios, Estado e União, sobretudo diante da dimensão territorial do Amazonas e da dificuldade de controlar incêndios em áreas remotas.
Neste domingo, os eleitores exercem seu direito democrático enquanto convivem com os efeitos de uma emergência ambiental que ainda não foi superada.
A votação termina ao longo da tarde, mas o desafio de garantir ar limpo e condições saudáveis de vida aos amazonenses continuará depois que as urnas forem fechadas.


