Rio Negro pode baixar a até 13 metros em Manaus neste ano
Serviço Geológico do Brasil (SGB) e Inpa descartam cenário de normalidade e projetam cota entre 13 e 16 metros; setembro será decisivo
A vazante do Rio Negro ganhou um novo sinal de alerta em Manaus. Depois de fechar agosto com queda acelerada, os cenários apresentados pelo Serviço Geológico do Brasil (SGB) e pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) indicam que o rio poderá atingir uma cota mínima entre 13 e 16 metros neste ano.
No cenário mais favorável, a vazante já estaria entre as dez maiores registradas em Manaus. Na hipótese mais severa, poderá se tornar a terceira maior da série histórica, ficando atrás apenas das secas extremas de 2023 e 2024.
A avaliação muda o quadro apresentado nos boletins anteriores do SGB, quando o Rio Negro ainda aparecia dentro da faixa de normalidade para o período. Com a evolução observada em agosto e as condições meteorológicas projetadas para os próximos meses, os pesquisadores passaram a trabalhar apenas com cenários de seca severa.
O Rio Negro encerrou agosto em 24,19 metros no Porto de Manaus. Ao longo do mês, perdeu 3,16 metros e acumulou queda de 4,32 metros desde a máxima deste ano. Nos últimos quatro dias de agosto, foram 60 centímetros de descida, mostrando uma aceleração da vazante.
Na terça-feira (1º), a cota chegou a 24,09 metros, mais 10 centímetros abaixo do nível registrado no último dia de agosto.
Setembro decisivo
Os primeiros 15 dias de setembro serão determinantes para indicar qual dos cenários poderá se confirmar.
Segundo o pesquisador André Martinelli, do SGB, a descida do Rio Negro durante agosto ficou acima da média histórica e apresentou comportamento semelhante ao observado em 2023. Nas secas extremas de 2023 e 2024, foi justamente na primeira quinzena de setembro que o rio registrou quedas acumuladas entre 3 e 3,5 metros.
A referência ajuda a dimensionar a importância das próximas semanas. Se o ritmo mais intenso persistir, a possibilidade de uma vazante próxima dos cenários mais severos ganha força.
A situação já preocupa em outros pontos da bacia. Em Barcelos, no Médio Rio Negro, o nível do rio rompeu a faixa considerada normal para o período. Em Roraima, rios monitorados registram as menores cotas já observadas para esta época do ano.
No Solimões, o quadro ainda não é considerado extremo, mas o SGB acompanha a possibilidade de intensificação da descida à medida que o déficit de chuvas avance sobre a bacia.
El Niño
Outro fator entrou no radar dos pesquisadores: o El Niño. As condições do fenômeno devem influenciar o regime de chuvas na Amazônia nos próximos meses e podem prolongar seus efeitos até o primeiro trimestre de 2027.
A tendência é de precipitações abaixo do esperado e de uma transição mais demorada para o período chuvoso. Em Manaus, essa mudança normalmente ocorre entre outubro e novembro, mas neste ano poderá avançar até dezembro.
Isso significa que mesmo o retorno das chuvas não necessariamente produzirá uma recuperação imediata do Rio Negro. Pancadas intensas e isoladas podem aumentar os volumes de precipitação sem gerar, na mesma proporção, a recarga necessária para elevar os rios.
A possibilidade é de que o Negro permaneça em cotas baixas por um período prolongado.
Defesa Civil
Foi diante desse cenário que a Defesa Civil de Manaus participou, nesta terça-feira (1º), do “Alerta de Vazante 2026”, promovido pelo SGB e pelo Inpa. O encontro reuniu pesquisadores, meteorologistas, engenheiros e representantes de órgãos responsáveis pelo acompanhamento das condições hidrológicas da região.
Para o secretário-executivo de Proteção e Defesa Civil Municipal, coronel Lima Júnior, a integração das informações permite antecipar medidas diante dos diferentes cenários.
“A integração entre as instituições e o compartilhamento das informações técnicas são fundamentais para fortalecer o trabalho de prevenção. Quanto mais qualificado for o nosso conhecimento sobre os cenários que podem se apresentar, maior será nossa capacidade de planejamento e de atuação para proteger a população de Manaus”, afirmou.
O acompanhamento agora se concentra no comportamento do rio durante setembro. Mais do que a cota registrada hoje, será a velocidade da descida nas próximas semanas que ajudará a definir se Manaus caminhará para uma vazante severa ou para um cenário próximo dos extremos enfrentados nos últimos anos.


