BRASILELEIÇÕES 2026

Sabatinas expõem candidatos e mexem no tabuleiro presidencial

Lula mantém liderança, Flávio segue competitivo e avanço de Cury abre uma nova disputa a pouco mais de um mês do voto

A eleição presidencial entra em setembro com uma novidade que até poucos dias atrás não fazia parte dos cálculos mais evidentes da campanha. A polarização entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) continua comandando a corrida pelo Palácio do Planalto, mas a sequência de entrevistas na Globo, a amplificação das campanhas nas redes sociais e as pesquisas divulgadas nesta segunda-feira (31) revelam movimento fora dos dois polos.

O principal personagem dessa mudança é Augusto Cury (Avante).

Na pesquisa AtlasIntel/Bloomberg divulgada nesta segunda, Lula aparece com 43,4% das intenções de voto no primeiro turno, enquanto Flávio Bolsonaro registra 33,7%. Cury chegou a 7,8%, praticamente no mesmo patamar de Renan Santos (Missão), com 7,6%. Ronaldo Caiado (PSD) aparece com 3,3% e Romeu Zema (Novo), com 1%.

Há um mês, Cury tinha apenas 1,6% no levantamento da Atlas. A alta de 6,2 pontos não é suficiente para ameaçar Lula ou Flávio, mas altera a disputa pelo eleitor que busca uma alternativa aos dois principais candidatos.

E não é um movimento detectado por apenas um instituto. Pesquisa BTG/Nexus, também divulgada nesta segunda-feira, mostrou crescimento expressivo de Cury e sua chegada ao terceiro pelotão da eleição. Como os levantamentos têm metodologias diferentes, os percentuais não devem ser comparados diretamente, mas ambos identificam a mesma direção de movimento.

Depois da Globo

A mudança acontece logo após uma das primeiras grandes provas nacionais dos candidatos: a série de entrevistas da Globo.

As sabatinas encerradas no sábado colocaram os principais presidenciáveis diante de perguntas difíceis e deram ao eleitor uma oportunidade rara, até aqui, de observá-los por períodos mais longos fora da linguagem controlada dos programas eleitorais.

Lula, como presidente e candidato à reeleição, foi pressionado sobre temas sensíveis, mas também conseguiu usar o espaço para defender resultados do governo, reforçar sua experiência e sustentar a comparação entre projetos políticos. Flávio Bolsonaro enfrentou questionamentos sobre transparência, enquanto Caiado, Zema e Renan Santos buscaram ampliar projeção nacional. Cury, por sua vez, chamou atenção pelo estilo e pela exposição inédita a um público mais amplo.

Não é possível atribuir diretamente às entrevistas a mudança registrada nas pesquisas. A Atlas ouviu 5.014 eleitores entre 25 e 30 de agosto, período que abrange parte da rodada de sabatinas, e tem margem de erro de um ponto percentual.

Mas a coincidência temporal importa.

Cury terminou a semana muito mais conhecido do que começou. Além da televisão, passou a ocupar intensamente as redes sociais e as buscas na internet. O crescimento eleitoral veio acompanhado de uma explosão de visibilidade digital, enquanto Lula preservou a liderança e saiu da rodada com espaço para reforçar a imagem de experiência e continuidade.

Lula preserva vantagem

Para Lula, o fechamento de agosto confirma uma posição de vantagem na corrida presidencial.

O presidente segue na liderança do primeiro turno e mantém distância relevante sobre Flávio Bolsonaro. Na Atlas, são 9,7 pontos de diferença, resultado que preserva Lula como o candidato a ser batido na entrada de setembro.

Mesmo em um eventual segundo turno, Lula aparece à frente, com 47,1%, contra 42,6% de Flávio. A distância é menor do que no primeiro turno, mas ainda mantém o presidente em posição competitiva e com vantagem numérica.

O cenário mostra que Lula entra no mês decisivo com base eleitoral consolidada, forte reconhecimento nacional e a possibilidade de transformar a exposição de campanha em defesa de resultados do governo e comparação direta entre projetos.

Mais do que tentar se apresentar ao eleitor, Lula chega a setembro com outro desafio: ampliar uma liderança que já existe e evitar que a disputa se estreite na reta final.

Flávio resiste

Flávio Bolsonaro entra em setembro ainda consolidado na segunda colocação, mas sem conseguir reduzir de forma consistente a vantagem de Lula.

Sua candidatura mantém distância dos demais concorrentes e, neste momento, sustenta a perspectiva de chegar ao segundo turno. O desafio, porém, continua sendo ampliar o alcance para além do eleitorado mais identificado com o bolsonarismo.

Na Atlas, Flávio passou de 35,8% para 33,7%, enquanto Lula oscilou de 44,9% para 43,4%. A diferença é que o presidente preserva a liderança, enquanto o candidato do PL precisa conter perdas e crescer fora de sua base mais fiel.

Com candidatos alternativos avançando, setembro tende a testar justamente essa capacidade de expansão. Para Flávio, mais do que manter o segundo lugar, será decisivo mostrar que consegue disputar o centro do eleitorado e encurtar uma vantagem que, por enquanto, continua nas mãos de Lula.

Efeito Cury

É justamente nesse espaço que Augusto Cury tenta entrar.

Seu crescimento não significa, por enquanto, que exista uma terceira candidatura competitiva com Lula e Flávio. A distância continua muito grande.

Mas significa que, pela primeira vez nesta campanha, um nome conseguiu produzir uma alteração rápida no grupo intermediário.

O fenômeno também expõe uma dificuldade de candidaturas mais tradicionais desse campo. Caiado e Zema estão em campanha há mais tempo, possuem experiência executiva e estruturas partidárias conhecidas, mas não conseguiram até agora produzir movimento semelhante.

Renan Santos permanece competitivo dentro desse segundo bloco e aparece com 7,6% na Atlas, tecnicamente no mesmo patamar de Cury.

Por isso, talvez seja cedo para falar em uma terceira via consolidada. O que existe é uma nova disputa pela terceira posição.

Setembro muda tudo

A eleição entra agora em uma fase diferente.

Até agosto, boa parte da disputa ocorreu entre eleitores mais politizados, redes sociais, convenções, início das agendas de rua e construção das candidaturas. Com rádio e televisão em funcionamento, entrevistas nacionais, debates e maior exposição dos candidatos, setembro tende a alcançar uma parcela muito mais ampla do eleitorado.

As primeiras evidências mostram que essa exposição pode produzir movimento.

Cury é, até agora, o exemplo mais evidente. Em uma semana, saiu da condição de candidatura periférica para ocupar espaço nacional e aparecer entre 7,8% e 11%, dependendo do instituto e do cenário pesquisado.

A questão agora é saber se conseguirá transformar curiosidade em voto estável.

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