Mulheres e interior concentram votos decisivos no Amazonas
Eleitorado feminino supera o masculino em quase 80 mil pessoas, enquanto os 61 municípios do interior reúnem cerca de 1,32 milhão de votos
A disputa pelo Governo do Amazonas, pelas duas vagas ao Senado e pelas cadeiras legislativas será decidida por um eleitorado no qual as mulheres e os moradores do interior assumem posição cada vez mais estratégica. Juntos, esses dois segmentos formam forças capazes de alterar o resultado das eleições de 2026 e obrigam os candidatos a ampliar suas propostas para além dos discursos tradicionais de campanha.
O Amazonas terá 2.801.182 eleitoras e eleitores aptos a votar no primeiro turno, marcado para 4 de outubro. O número representa um crescimento de 5,7% em relação às eleições gerais de 2022, desempenho superior à média nacional, que foi de 1,46%.
Dentro desse universo, as mulheres são maioria. O eleitorado feminino chegou a 1.440.590 pessoas, equivalente a 51,43% do total. Os homens somam 1.360.592, ou 48,57%. A diferença entre os dois grupos é de 79.998 votos.
O dado mostra que nenhuma candidatura competitiva ao governo ou ao Senado poderá tratar temas ligados às mulheres como pauta secundária. Saúde, geração de emprego, renda, segurança, transporte, educação, creches e combate à violência doméstica devem ocupar lugar central na disputa.
Maioria feminina cresce
A vantagem numérica das mulheres aumentou desde as eleições municipais de 2024. Naquele ano, o Amazonas tinha 1.408.880 eleitoras, enquanto os homens somavam 1.340.466.
Em 2026, o cadastro ganhou 31.710 mulheres e 20.126 homens. Isso significa que aproximadamente 61% dos novos eleitores incorporados ao sistema eleitoral amazonense entre os dois pleitos são mulheres.
Apesar da maioria nas urnas, a presença feminina ainda não se reflete, na mesma proporção, nos principais espaços de poder. A Assembleia Legislativa, a bancada federal e as prefeituras continuam sendo ocupadas majoritariamente por homens.
A eleição deste ano poderá revelar se os partidos conseguirão transformar a presença das mulheres nas campanhas em participação efetiva nas chapas, nos programas de governo e nas estruturas de decisão.
A composição das candidaturas majoritárias já apresenta movimentos nessa direção. David Almeida escolheu Shádia Fraxe para a vaga de vice, enquanto Omar Aziz oficializou Alessandra Campelo. Maria do Carmo Seffair também entra na disputa como candidata ao governo.
No entanto, a simples presença de mulheres nas chapas não garante a conquista do eleitorado feminino. As candidaturas precisarão demonstrar como pretendem enfrentar problemas concretos que atingem principalmente as mulheres, especialmente as chefes de família.
Interior pode desequilibrar a disputa
Outro centro decisivo da eleição está nos 61 municípios do interior, que concentram aproximadamente 1,32 milhão de eleitores. Manaus continua reunindo a maior parcela do eleitorado estadual, mas a diferença entre a capital e o conjunto dos demais municípios impede que qualquer candidatura dependa apenas do desempenho urbano.
Depois da capital, os maiores colégios eleitorais estão em Manacapuru, Itacoatiara, Parintins e Coari. Esses municípios costumam receber atenção especial das campanhas por sua capacidade de influenciar as regiões vizinhas e concentrar lideranças políticas com atuação territorial.
No interior, a campanha enfrenta uma realidade diferente da observada em Manaus. Distâncias, transporte fluvial, acesso à saúde, abastecimento de energia, conectividade, educação, produção rural e presença permanente do Estado estão entre as principais demandas.
A logística também representa um desafio para candidatos e para a própria Justiça Eleitoral. O Amazonas possui comunidades acessíveis apenas por rios, com deslocamentos que podem levar dias e exigir o uso combinado de embarcações, aeronaves e equipes especializadas.
Por essa razão, o desempenho de uma candidatura no interior depende não apenas da estrutura partidária, mas também da capacidade de construir alianças com prefeitos, vereadores, lideranças comunitárias, associações rurais e representantes dos povos tradicionais.
Eleitorado indígena dobra no Amazonas
A eleição de 2026 também será marcada pelo forte crescimento do eleitorado indígena. O Amazonas passou de 37.359 pessoas indígenas registradas em 2024 para 73.580 neste ano, aumento absoluto de 36.221 eleitores.
O estado apresentou o maior crescimento numérico do país nesse segmento, segundo o Tribunal Superior Eleitoral. Entre as etnias com maior presença no cadastro nacional estão Tikúna e Kokama, ambas fortemente concentradas no território amazonense.
O aumento amplia o peso político das populações indígenas e deve levar temas como demarcação de terras, saúde, educação diferenciada, proteção ambiental, segurança territorial e combate ao garimpo ilegal ao centro do debate estadual.
Ao mesmo tempo, o crescimento do cadastro exige que as campanhas evitem tratar os povos indígenas como um grupo homogêneo. Cada território possui necessidades, formas de organização e prioridades próprias.
Campanha precisará sair da capital
Com mais de 2,8 milhões de pessoas aptas a votar, o Amazonas chega às eleições com um eleitorado maior, mais feminino e com presença crescente de povos indígenas.
O cenário exige campanhas territorialmente amplas e capazes de dialogar com públicos que possuem realidades distintas. Em Manaus, as preocupações passam por transporte coletivo, saúde, segurança, emprego e infraestrutura urbana. No interior, essas questões se somam ao isolamento, ao custo de vida e às dificuldades de acesso aos serviços públicos.
A partir de 16 de agosto, quando começa oficialmente a propaganda eleitoral, os candidatos poderão realizar comícios, caminhadas, carreatas, distribuição de materiais e divulgação de propostas na internet. Os pedidos de registro das candidaturas deverão ser apresentados até 15 de agosto.
Até lá, as convenções partidárias e a escolha dos vices devem mostrar como cada grupo pretende alcançar esses dois polos de força.
As mulheres representam a maioria numérica. O interior reúne votos suficientes para virar uma eleição. E o crescimento da participação indígena acrescenta novas vozes ao processo.
Quem conseguir compreender essa combinação e apresentar respostas concretas terá vantagem em uma disputa que não será vencida apenas nos grandes eventos de Manaus, mas também nas comunidades, nas calhas dos rios e nas cidades que formam o interior do Amazonas.


