Agosto Dourado alerta para pressão da indústria de fórmulas
Semana Mundial da Amamentação destaca a necessidade de proteger mães e profissionais de saúde do marketing de substitutos do leite materno
O início do Agosto Dourado reacende, em todo o país, o debate sobre a importância da amamentação e os obstáculos enfrentados pelas mulheres para manter o aleitamento materno. Neste ano, a Semana Mundial da Amamentação, realizada entre sábado (1º) e sexta-feira (7), chama atenção para a necessidade de fortalecer as estratégias que já apresentam resultados na proteção de mães e bebês.
Coordenada internacionalmente pela World Alliance for Breastfeeding Action (Waba), a mobilização de 2026 relaciona a amamentação a um começo de vida sustentável e defende que o apoio à mulher seja uma responsabilidade compartilhada pela família, pelos serviços de saúde, pelos empregadores e pelo poder público. A campanha mundial é realizada anualmente de 1º a 7 de agosto.
No Brasil, agosto é oficialmente o mês dedicado à promoção do aleitamento materno. Conhecida como Agosto Dourado, a campanha recebe esse nome por associar o leite materno ao padrão ouro da alimentação infantil e prevê a intensificação de ações de informação e mobilização social.
Além das dificuldades físicas, emocionais e sociais que podem surgir durante a amamentação, especialistas alertam para outra barreira: a forte influência comercial da indústria de fórmulas infantis sobre famílias e profissionais de saúde.

Marketing em consultórios e redes sociais
A presidente do Departamento Científico de Aleitamento Materno da Sociedade Brasileira de Pediatria, Rossiclei Pinheiro, afirma que existe uma ampla estratégia de divulgação que apresenta as fórmulas como equivalentes ao leite materno.
Segundo a pediatra, a abordagem comercial ocorre em hospitais, consultórios, eventos, datas comemorativas e plataformas digitais, alcançando tanto profissionais de saúde quanto famílias fragilizadas pelas dificuldades iniciais da amamentação.
“O que a gente percebe é que há um marketing muito grande dizendo que essas fórmulas substituem o leite materno, e não substituem”, alertou a especialista em entrevista à Agência Brasil.

O Ministério da Saúde também reconhece o avanço da publicidade digital dos substitutos do leite materno. A pasta aponta que os ambientes on-line se tornaram uma das principais fontes de exposição a esse tipo de promoção e que o crescimento das vendas de fórmulas está relacionado à redução das taxas de amamentação em diferentes países.
O alerta, entretanto, não significa que a fórmula infantil deva ser tratada como proibida ou que mães que a utilizam devam ser julgadas. O produto pode ser necessário quando há contraindicação à amamentação, ausência ou insuficiência de leite, condições clínicas específicas, alergias ou outras situações avaliadas por profissionais qualificados.
A legislação brasileira determina que o uso de fórmula para crianças menores de um ano tenha indicação expressa de médico ou nutricionista.
Proteção também está na lei
A comercialização de fórmulas, mamadeiras, bicos e chupetas é regulamentada no Brasil pela Lei nº 11.265/2006 e pelo Decreto nº 9.579/2018.
As normas buscam impedir que a promoção comercial desses produtos enfraqueça a amamentação. A lei proíbe patrocínios financeiros ou materiais diretamente a profissionais de saúde e restringe imagens, expressões e informações que possam criar dúvidas sobre a capacidade da mulher de amamentar.

As embalagens também devem apresentar advertências sobre a importância do leite materno, os riscos do preparo inadequado e a necessidade de orientação médica ou nutricional.
A legislação restringe ainda a distribuição de amostras de mamadeiras, bicos e chupetas e impede que esses produtos sejam apresentados como alternativas superiores ou semelhantes ao aleitamento.
A Sociedade Brasileira de Pediatria alerta que o uso de bicos artificiais pode alterar a forma de sucção do bebê, diminuir o estímulo necessário à produção de leite e contribuir para o desmame precoce.
Apoio muda a experiência das mães
A história de Lorrany Duarte mostra como a informação e o acompanhamento podem modificar a experiência da amamentação. Mãe pela segunda vez, ela pretende oferecer leite materno de forma exclusiva à filha Elisa durante os primeiros seis meses.
A decisão é influenciada pela experiência vivida com a primeira filha, que passou a receber fórmula quando tinha um mês de vida. Agora, diante das dificuldades iniciais para amamentar, Lorrany conta com o apoio da irmã, Marielly Duarte, e com o atendimento especializado de um banco de leite humano.
O relato evidencia que o sucesso da amamentação não depende apenas da vontade da mãe. Dor, fissuras, dificuldades de pega, ingurgitamento mamário e insegurança podem levar ao abandono precoce quando não existe orientação adequada.
Por isso, o Ministério da Saúde recomenda que o bebê receba somente leite materno até os seis meses, sem água, chá ou outros alimentos, e que a amamentação continue até os dois anos ou mais, acompanhada da alimentação complementar após o sexto mês.
No Amazonas, os bancos de leite e postos de coleta exercem papel importante nessa rede. Dados divulgados pelo Ministério da Saúde mostram que mais de quatro mil lactantes receberam atendimento individualizado nos três bancos de leite e nos 17 postos de coleta existentes no estado em 2023. Também foram registrados 13,2 mil atendimentos coletivos e 1,6 mil visitas domiciliares.
Brasil avança, mas ainda está distante da meta
O Brasil apresentou uma evolução expressiva nas últimas décadas. A prevalência da amamentação exclusiva entre crianças menores de seis meses passou de índices inferiores a 5% na década de 1980 para 45,8%, conforme o Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil.
Apesar do avanço, o resultado ainda está distante da meta brasileira de alcançar 70% das crianças menores de seis meses em aleitamento materno exclusivo até 2030.
Em 2024, o país instituiu o Programa Nacional de Promoção, Proteção e Apoio à Amamentação. A política pretende organizar as ações realizadas nas redes de saúde, incentivar o aleitamento na primeira hora de vida e ampliar a proteção às mulheres trabalhadoras, estudantes e em situação de vulnerabilidade.
A promoção do aleitamento também produz efeitos econômicos. Famílias que conseguem manter a amamentação exclusiva reduzem gastos com fórmulas e podem enfrentar menos despesas com medicamentos e tratamentos relacionados a infecções e outras doenças infantis.
Para o sistema público, o aumento da amamentação representa menor pressão sobre os serviços de saúde. Para as mulheres, porém, o resultado só será alcançado quando o discurso de incentivo vier acompanhado de licença-maternidade, condições adequadas de trabalho, acolhimento nos serviços de saúde, bancos de leite e divisão das responsabilidades de cuidado.
O Agosto Dourado reforça que proteger a amamentação não significa impor uma obrigação individual às mães. Significa garantir que decisões sobre a alimentação do bebê sejam tomadas com informação confiável, acompanhamento profissional e sem interferência indevida de interesses comerciais.


