Figueiredo concentra um terço das barragens do Amazonas
Município reúne 27 das 77 estruturas registradas no estado; relatório oficial aponta lacunas cadastrais e reforça a necessidade de prevenção, transparência e planos de emergência
Presidente Figueiredo, a 117 quilômetros de Manaus, concentra o maior número de barragens registradas no Amazonas. São 27 estruturas, mais de um terço das 77 cadastradas no Sistema Nacional de Informações sobre Segurança de Barragens (SNISB), segundo relatório estadual divulgado em março de 2026.
O número coloca o município no centro de um desafio que envolve fiscalização, transparência e preparação para situações de emergência. Presidente Figueiredo abriga estruturas destinadas à geração de energia, mineração e outras atividades econômicas, cada uma submetida a órgãos fiscalizadores diferentes.
O documento não afirma que as 27 barragens estejam em situação de risco nem apresenta, de forma individualizada, a classificação de todas as estruturas do município. Por isso, a concentração não deve ser interpretada como sinal automático de perigo. Ela indica, porém, a necessidade de acompanhamento permanente, informações atualizadas e comunicação clara com as comunidades que vivem nas áreas de influência.
Manacapuru aparece em segundo lugar no estado, com 13 barragens. Rio Preto da Eva possui nove; Boca do Acre, cinco; e Canutama, quatro.

Risco e dano potencial
O relatório mostra que, no conjunto do Amazonas, 42 barragens estão classificadas com categoria de risco médio e 17 com risco baixo. Outras estruturas ainda não aparecem enquadradas nas categorias apresentadas pelo documento.
A categoria de risco considera aspectos como características técnicas, conservação e execução do plano de segurança. Já o dano potencial associado mede as possíveis consequências de um acidente, independentemente da probabilidade de ele ocorrer. Entram nessa avaliação a presença de comunidades, infraestrutura, áreas protegidas e sistemas hidrográficos localizados abaixo da barragem.
No estado, 12 barragens possuem dano potencial alto, 47 têm dano potencial baixo e duas estão classificadas com dano médio. O relatório, entretanto, não informa nesse trecho quantas das estruturas de dano potencial alto estão em Presidente Figueiredo.
Essa distinção é essencial para evitar conclusões precipitadas. Uma barragem pode ter baixo risco de rompimento e, ao mesmo tempo, alto dano potencial, caso existam pessoas, rios, estradas ou equipamentos públicos em uma eventual trajetória de inundação.

Dados dificultam a prevenção
A qualidade das informações disponíveis também aparece como ponto de atenção. Das barragens cadastradas no Amazonas, 45 têm dados classificados como ótimos e 15 apresentam boa completude. Em nove casos, porém, o nível das informações é mínimo, e uma estrutura possui completude baixa.
Informações mínimas ou incompletas podem dificultar avaliações sobre conservação, capacidade do reservatório, população potencialmente atingida e existência de planos de emergência. O próprio relatório reconhece que a qualidade dos dados interfere diretamente na capacidade dos órgãos públicos de adotar ações preventivas, corretivas e emergenciais.
O documento também apresenta uma diferença que merece esclarecimento: na introdução, afirma que o inventário estadual passou de 68 estruturas em 2024 para 73 ao final de 2025. Em outro trecho, informa a existência de 77 barragens cadastradas no Amazonas. A divergência pode decorrer de atualizações realizadas em momentos diferentes, mas não é explicada no relatório.
Das 77 estruturas mencionadas, 48 são fiscalizadas pelo Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam), principalmente barragens de aquicultura e armazenamento de água. A Agência Nacional de Mineração acompanha 15 ligadas à atividade mineral; a Agência Nacional de Energia Elétrica fiscaliza 13 hidrelétricas; e a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico responde por uma barragem destinada à irrigação.

Fiscalização
Em 2025, o plano de fiscalização do Ipaam combinou conferência de dados técnicos, análise de processos administrativos e atualização das informações no SNISB. As barragens previstas no cronograma anual foram consideradas fiscalizadas, com emissão de notificações para complementação de documentos e regularização de outorgas.
O relatório informa que, diferentemente do ano anterior, o trabalho priorizou a análise documental e cadastral, em vez de deslocamentos físicos extensivos. A estratégia permitiu identificar inconsistências, mas reforça a importância de tornar públicas informações como a data da última inspeção presencial de cada estrutura.

No quadro de ações detalhadas de 2025, não aparecem barragens de Presidente Figueiredo entre as estruturas nominalmente listadas. Isso não significa ausência de fiscalização por outros órgãos, porque barragens de mineração e hidrelétricas estão sob responsabilidade federal. Ainda assim, o dado evidencia a necessidade de integração entre Ipaam, ANM, Aneel, Defesa Civil e administração municipal.
Balbina reforça cultura de prevenção
A Hidrelétrica de Balbina é a estrutura mais conhecida do município. A vila localizada na região reúne cerca de 2 mil famílias, segundo a Prefeitura de Presidente Figueiredo, que elaborou um plano municipal de contingência para eventual rompimento de barragem.
Nos dias 6 e 7 de julho de 2026, a empresa responsável pela hidrelétrica e as defesas civis estadual e municipal programaram o segundo ciclo de simulados comunitários de segurança. A ação envolveu orientações sobre rotas de fuga, pontos de encontro e procedimentos de emergência.

Simulados não indicam risco iminente. Fazem parte das medidas preventivas exigidas para estruturas capazes de provocar grandes impactos em caso de acidente. Quanto mais preparada estiver a população, maior será a capacidade de resposta diante de uma situação real.
Presidente Figueiredo não precisa de alarmismo, mas de transparência. A população deve ter acesso à lista das 27 barragens, suas finalidades, responsáveis, classificações de risco e dano potencial, datas das últimas vistorias e existência de planos de ação de emergência.
A concentração de estruturas no município transforma a segurança de barragens em tema permanente de interesse público. Prevenir significa fiscalizar antes do problema, corrigir falhas, atualizar dados e garantir que quem vive próximo saiba como agir.
Com informações do Relatório Estadual de Segurança de Barragens, do Ipaam e da Prefeitura de Presidente Figueiredo.


