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Inclusão ainda não chegou para todos e TCE-AM coloca acessibilidade no centro do debate no Amazonas

Seminário revela distância entre direitos garantidos e realidade enfrentada por pessoas com deficiência

A discussão sobre acessibilidade no setor público ganhou novo peso no Amazonas nesta quarta-feira (8), com a realização do 1º Seminário de Acessibilidade da Região Norte dos Tribunais de Contas, promovido pelo Tribunal de Contas do Estado do Amazonas (TCE-AM), em Manaus.

O evento reuniu autoridades, especialistas e representantes da sociedade civil em torno de um diagnóstico já conhecido, mas ainda persistente: o Brasil avançou na legislação, mas segue enfrentando dificuldades para garantir inclusão plena na prática.

Na abertura, a conselheira-presidente do TCE-AM, Yara Amazônia Lins, destacou que a acessibilidade precisa deixar de ser tratada apenas como exigência legal.

“A acessibilidade é um instrumento essencial de inclusão e da dignidade humana. Mais do que exigência legal, é um imperativo ético”, afirmou.

A fala reforça uma mudança de postura dos órgãos de controle, que passam a atuar não apenas como fiscalizadores, mas também como indutores de políticas públicas mais efetivas.

Segundo a presidente, o problema central não está na falta de normas, mas na sua execução. “Anteparo legal não falta. O desafio é fazer esses direitos saírem do papel e se concretizarem no cotidiano”, pontuou.

Barreiras vão além da estrutura física

A procuradora do Ministério Público de Contas, Fernanda Cantanhede, presidente da Comissão de Acessibilidade, destacou que o debate sobre inclusão exige mudança de mentalidade.

“As barreiras não estão nas pessoas, mas nas estruturas e nas atitudes que precisam ser transformadas”, afirmou.

No próprio Tribunal, medidas internas já vêm sendo adotadas, como a adaptação do sistema de ponto eletrônico para pessoas com deficiência visual e usuários de cadeiras de rodas, além da manutenção do piso tátil e ações de conscientização junto aos servidores.

Experiência pessoal reforça urgência da inclusão

A programação também trouxe uma dimensão prática e humana ao debate com a participação do ex-velejador olímpico Lars Grael.

Ao relembrar o acidente que resultou na amputação de uma perna, ele destacou que o Brasil enfrenta um déficit de conscientização, não de legislação.

“Não faltam leis no Brasil. Falta conscientização para que elas sejam cumpridas”, afirmou.

A fala reforça o entendimento de que o desafio da acessibilidade é, sobretudo, cultural e institucional.

Fiscalização ganha protagonismo no interior

Durante o seminário, o chefe do Departamento de Inteligência do TCE-AM, Luiz Fabiano Mafra Negreiros, apresentou a “Blitz Acessibilidade”, iniciativa que leva equipes do Tribunal aos municípios para verificar, presencialmente, as condições de acessibilidade em espaços públicos.

A ação amplia o alcance da fiscalização e evidencia uma atuação mais próxima da realidade enfrentada pela população.

Já a secretária de Estado dos Direitos da Pessoa com Deficiência, Maria Jane Trindade Nunes, destacou que o desafio atual é garantir a efetividade das políticas públicas.

Ela apresentou ações como emissão de documentos, atendimento descentralizado e programas voltados à inclusão e empregabilidade, tanto na capital quanto no interior.

Inclusão precisa sair do discurso e chegar ao cotidiano

Paralelamente às discussões, o seminário também oferece atendimento direto ao público com deficiência, incluindo emissão de carteiras de identificação, orientações sobre passe livre, credenciais de estacionamento, acesso a crédito inclusivo, atendimento jurídico e encaminhamentos para doação de cadeiras de rodas.

A proposta é aproximar o debate técnico da realidade das pessoas que dependem dessas políticas.

A programação segue até esta quinta-feira, com atividades voltadas à capacitação de servidores e ao aprofundamento das discussões sobre acessibilidade no setor público.

Mais do que um encontro institucional, o seminário evidencia um ponto central: garantir direitos já não é mais o principal desafio — o que está em jogo agora é torná-los efetivos no dia a dia da população.

Fotos: Joel Arthus

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