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Mulheres da Amazônia lideram marcha histórica em Brasília e pressionam Congresso por direitos

Mobilização no Acampamento Terra Livre reúne milhares de indígenas e reforça protagonismo feminino na defesa dos territórios

Brasília foi tomada por uma das maiores mobilizações indígenas do país nesta terça-feira (7), com milhares de representantes de povos originários marchando pela Esplanada dos Ministérios durante a 22ª edição do Acampamento Terra Livre (ATL 2026). No centro desse movimento, mulheres da Amazônia assumiram papel de liderança em uma mobilização que uniu resistência, articulação política e defesa territorial.

A marcha teve início por volta das 9h30, no Eixo Cultural Ibero-Americano, e percorreu cerca de seis quilômetros até o Congresso Nacional, principal alvo das críticas do movimento. Sob forte calor, indígenas de etnias como tikuna, kokama, makuxí, tupinambá, pataxó, krahô, apinajé, guajajara, krikati e gavião ocuparam a capital federal em um ato que combina simbolismo e pressão institucional.

Pintados com urucum e jenipapo e carregando faixas com mensagens como “Nosso território não está à venda” e “Marco temporal é golpe”, os manifestantes deixaram claro o tom do protesto: a defesa dos direitos constitucionais e a denúncia de ameaças vindas, sobretudo, do Congresso Nacional.

Congresso no centro das críticas e disputa por território

O ato desta terça escancarou o nível de tensão entre os povos indígenas e o Legislativo federal. Lideranças acusam deputados e senadores de avançarem com propostas que fragilizam direitos garantidos pela Constituição, especialmente no que diz respeito à posse e uso dos territórios tradicionais.

Entre os principais pontos de conflito está o chamado marco temporal — tese que limita o direito à terra apenas às áreas ocupadas em 1988. Apesar de já ter sido considerado inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal, o tema voltou ao centro do debate político após o Senado aprovar, em 2025, uma proposta que retoma esse entendimento, ainda pendente de nova análise pela Câmara.

Além disso, os indígenas denunciam a pressão de setores como agronegócio, mineração e grandes empreendimentos, que, segundo o movimento, têm influenciado decisões políticas que permitem a exploração de terras tradicionais.

Mulheres amazônicas ampliam protagonismo político

Dentro da mobilização, o protagonismo feminino — especialmente de mulheres da Amazônia — se consolida como uma das principais transformações do movimento indígena nos últimos anos.

Delegações do Alto Solimões, com forte presença do povo Tikuna — o maior povo indígena do Brasil — marcaram presença na marcha, levando para Brasília demandas históricas relacionadas à proteção territorial, saúde indígena e enfrentamento à violência nas comunidades de fronteira.

Lideranças ligadas a organizações como a União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja) e articulações regionais do Alto Solimões reforçaram a necessidade de maior presença do Estado em áreas estratégicas da Amazônia, onde conflitos territoriais e pressões externas seguem intensos.

Do alto do caminhão de som durante o ato, a deputada federal indígena Joenia Wapichana reforçou o papel político dos povos originários — e, especialmente, das mulheres nesse processo:

“Estamos aqui para dizer que os povos indígenas têm capacidade para serem o que quiserem: parlamentares, autoridades públicas, representantes políticos. Essas ferramentas estão à nossa disposição.”

A fala sintetiza o momento vivido pelo movimento indígena: uma transição da resistência para a ocupação efetiva dos espaços institucionais.

Essa mesma linha vem sendo defendida por lideranças femininas em todo o país. A ministra dos Povos Indígenas, Sônia Guajajara, tem reiterado que a presença das mulheres indígenas é estratégica para conectar a luta territorial às agendas de clima, direitos sociais e desenvolvimento sustentável.

A participação ativa reforça uma mudança estrutural: mulheres indígenas deixam de ocupar espaços secundários e passam a influenciar diretamente os rumos da luta nacional.

Demarcação, avanços e entraves persistentes

Apesar de avanços recentes, o cenário ainda é de forte pressão e desafios. Entre 2023 e 2025, o governo federal homologou 20 novos territórios indígenas, somando cerca de 2,5 milhões de hectares em 11 estados, segundo dados oficiais.

Ainda assim, lideranças apontam que o passivo é elevado. Cerca de 110 áreas seguem em análise para reconhecimento como terras indígenas.

O coordenador da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, Dinamam Tuxá, reforçou durante o ATL que o problema é estrutural:

“Temos um passivo de demarcação muito alto e um cenário de muita violência e vulnerabilidade nas terras indígenas que governo algum conseguiu superar.”

Amazônia no centro da disputa nacional

A forte presença de povos amazônicos na marcha reforça um ponto central: o debate sobre os direitos indígenas é, também, uma disputa direta sobre o futuro da Amazônia.

Regiões como o Alto Solimões e o Vale do Javari — onde vivem povos como Tikuna, Kokama e comunidades isoladas — sintetizam essa tensão entre proteção ambiental e pressão econômica. São territórios estratégicos, tanto para a biodiversidade quanto para o equilíbrio climático global.

Nesse cenário, mulheres amazônicas emergem como protagonistas não apenas da resistência, mas da construção de alternativas para o desenvolvimento sustentável da região.

A marcha desta terça-feira, portanto, não se limita a um ato de protesto.

Ela reposiciona os povos indígenas — e, sobretudo, as mulheres da Amazônia — como atores centrais na definição dos rumos políticos, ambientais e sociais do Brasil.

Fotos: Agência Brasil e Yasmin Cadore (Boi Garantido)

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