Após uma década de cuidados, peixes-boi retornam aos rios da Amazônia
Animais foram soltos na Piagaçu-Purus, em Beruri, com microchips e transmissores que permitem acompanhar adaptação na natureza
Após até uma década de reabilitação, 10 peixes-boi amazônicos foram devolvidos à natureza na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Piagaçu-Purus, no município de Beruri, interior do Amazonas. A ação foi realizada nos dias 20 e 21 de março, pelas equipes da Associação Amigos do Peixe-boi e do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, com apoio financeiro do SeaWorld & Busch Gardens Conservation Fund.
A iniciativa reforça uma das mais importantes estratégias de conservação da fauna amazônica, voltada à recuperação de uma espécie ameaçada e à recomposição de populações naturais.
Os animais foram resgatados ainda filhotes, em condição de extrema vulnerabilidade após perderem as mães — na maioria dos casos, vítimas da caça ilegal. Sem capacidade de sobrevivência sozinhos, são levados ao Inpa, onde passam por um longo processo de reabilitação, com acompanhamento veterinário, manejo especializado e cuidados diários.

“A caça ainda é uma realidade em alguns locais da Amazônia. Muitas vezes a fêmea é abatida e o filhote, que depende do leite materno por até dois anos, não consegue sobreviver sozinho”, explica a pesquisadora do Inpa, Vera da Silva. “Além disso, existem casos de emalhe acidental em redes de pesca, situações em que filhotes saudáveis são retirados da natureza sem necessidade”, acrescenta.
Semicativeiro em Iranduba é etapa decisiva
Antes da soltura definitiva, os peixes-boi passam por uma fase de adaptação em semicativeiro, realizada em um lago seminatural na Fazenda Santa Rosa, no município de Iranduba.

“Nesse ambiente, os peixes-bois retomam comportamentos essenciais para voltar à natureza, como a busca por alimento e a adaptação às condições ambientais do rio”, explica a coordenadora do projeto, a pesquisadora do Inpa Vera da Silva.
Segundo ela, essa fase é determinante para o sucesso da reintrodução. “Os peixes-bois precisam voltar aos rios sadios, por isso realizamos algumas capturas para coleta de material biológico como saliva, sangue, urina e fezes para saber quais são os animais mais aptos a retornar aos rios”, detalha.

Soltura ocorre no período ideal dos rios
A liberação dos animais é feita durante a cheia dos rios amazônicos, quando há maior oferta de alimento natural, o que aumenta significativamente as chances de sobrevivência.
“A ação reforça o compromisso contínuo do projeto com a proteção de um mamífero aquático, um dos símbolos da Amazônia, e que possui função ecológica primordial para o equilíbrio do ecossistema”, destaca a coordenação do projeto.
Logística complexa até a reserva
A operação de soltura envolve uma logística delicada. O transporte dos animais até a Piagaçu-Purus durou mais de 24 horas, com deslocamento por estrada e longos trechos por via fluvial.

Cada peixe-boi foi transportado em caixas especiais, com acompanhamento técnico durante todo o percurso, garantindo segurança até o momento da soltura.
Monitoramento combina tecnologia e apoio local
Antes de serem devolvidos à natureza, todos os animais receberam microchips de identificação. Parte deles também foi equipada com transmissores acoplados à cauda, permitindo o monitoramento nos primeiros meses em liberdade.

O acompanhamento é realizado por equipes do Inpa, com expedições periódicas para localização e avaliação dos animais. Além disso, comunidades ribeirinhas atuam como parceiras, informando avistamentos e ajudando na proteção da espécie.
Caso de Muruá simboliza ciclo completo
Entre os animais soltos está Muruá, fêmea que chegou ao Inpa ainda filhote, em 2016. Após cerca de dez anos de reabilitação, ela retorna à natureza já adulta, representando o sucesso do programa.

Projeto já devolveu 59 animais à natureza
O Projeto Peixe-boi da Amazônia, conduzido pelo Inpa desde a década de 1970, é considerado pioneiro na conservação da espécie. Desde 2018, mais de 50 animais já haviam sido reintroduzidos.
Até março de 2026, o projeto já contabiliza 59 peixes-bois devolvidos à natureza, consolidando uma das maiores ações de soltura da espécie em toda a América do Sul.
Com apoio de instituições e financiamento internacional, o projeto tem ampliado sua capacidade de reabilitação, soltura e monitoramento pós-soltura, fortalecendo a preservação desse mamífero aquático endêmico da região.
Espécie símbolo ainda exige proteção contínua
O peixe-boi amazônico segue como uma espécie vulnerável à extinção. A continuidade das ações de conservação, aliada à educação ambiental e à participação das comunidades locais, é considerada essencial para garantir sua sobrevivência nos rios amazônicos.
Com informações da assessoria da Ampa/LMA-INPA


