Tadeu muda de partido e fala em pontes, mas evita citar David Almeida na hora decisiva
Nota do vice-governador tenta enquadrar filiação ao PP como união sem ruptura, enquanto bastidores expõem recalibragem para 2026
O vice-governador Tadeu de Souza formalizou sua filiação ao Progressistas (PP) em Brasília, na quarta-feira (11), e só depois divulgou uma nota à imprensa para explicar o gesto político. A filiação foi tornada pública nacionalmente quando os presidentes da Federação União Progressista, Antônio Rueda (União Brasil) e Ciro Nogueira (PP), publicaram em colaboração (“collab”) nas redes sociais a foto do encontro — foi assim que o Amazonas “ficou sabendo” oficialmente do movimento, via Instagram, antes de qualquer explicação local mais robusta.
A nota de Tadeu, enviada após a repercussão, nesta quinta-feira (12), tenta fixar um enquadramento: “frente ampla da centro-direita”, “responsabilidade institucional” e, principalmente, a frase-manifesto de que o momento exige “mais pontes do que muros” e “sem rupturas”.
O problema político não está no que a nota diz — e sim no que ela não diz. Em nenhum momento o vice-governador cita David Almeida, o prefeito de Manaus que historicamente é tratado como seu padrinho político e aliado mais próximo, e que, segundo relatos recorrentes na política local, foi peça central na construção do caminho que levou Tadeu ao centro do poder.

O contraste fica maior porque há registros jornalísticos de que Tadeu foi indicado por David Almeida para compor a chapa de Wilson Lima em 2022 — e que essa escolha fazia parte de um cálculo político mirando justamente o momento em que Wilson precisaria se desincompatibilizar para disputar outro cargo.
Se a tese oficial agora é “união sem ruptura”, por que a nota evita o nome do aliado que mais simboliza sua trajetória recente? A pergunta é inevitável — e, para o eleitor, é bem mais relevante do que o slogan sobre pontes.
“Combinou com os russos” e o timing controlado do anúncio
Outro ponto que ajuda a entender o xadrez: o anúncio não estourou por entrevista, coletiva ou ato no Amazonas — ele foi marcado, segurado e publicado junto nas redes de Rueda e Ciro, no dia seguinte ao encontro. Há informações de a decisão foi tomada no dia 11, mas o anúncio foi combinado para sair “conjuntamente” nas redes sociais dos dois dirigentes.

Esse detalhe importa porque indica estratégia de comunicação e controle de narrativa: primeiro o carimbo nacional; só depois a explicação local em nota.
A biografia desmonta a tese de “figura sem lastro”, mas expõe a dependência política
Aqui é preciso rigor: não é verdadeiro dizer que Tadeu nunca ocupou cargo relevante. Ele foi procurador-geral do Estado e foi chefe da Casa Civil da Prefeitura de Manaus, além de ter coordenado a transição municipal em 2020 — funções de alta confiança política e técnica.
Mas isso não anula o ponto central da crítica: essa trajetória se consolidou por confiança e articulação dentro de grupos de poder — e, segundo reportagens, a ponte mais decisiva até aqui foi David Almeida. Por isso, ao deixar o Avante (partido controlado por David no Amazonas) e ingressar no PP, o silêncio sobre essa relação abre espaço para especulações que a própria nota diz querer evitar.
David minimiza, mas o tabuleiro sugere afastamento gradual
O prefeito David Almeida se manifestou publicamente e minimizou a movimentação, dizendo que “faz parte do jogo político” e que está “tudo tranquilo” quanto à saída do Avante.
Ao mesmo tempo, há leitura de que a filiação marca aproximação com Wilson Lima e um afastamento gradual de David, com sinais simbólicos na própria foto e nos atores presentes no encontro em Brasília.
O que fica, portanto, é um paradoxo: Tadeu diz “sem rupturas”, David diz “sem problema”, mas o desenho político aponta para reacomodação real de forças — e, quando forças se reacomodam, alguém perde espaço.
O que a nota tenta garantir e o que ainda não responde
A nota é, acima de tudo, uma tentativa de segurar três frentes ao mesmo tempo:
tranquilizar a base (“sem rompimento”);
legitimar a mudança (“frente ampla”);
e evitar que a filiação vire sinônimo de guerra aberta na centro-direita local.
Mas há perguntas que o texto não responde — e que o eleitor vai cobrar:
David Almeida foi avisado e concordou previamente?
Se houve alinhamento, por que não aparece na nota?
Se não houve, por que a narrativa tenta vender “sem ruptura” enquanto o gesto mexe exatamente na estrutura de alianças de 2026?
No fim, a nota pede que o Amazonas leia o movimento como “união”. Só que, na política, união sem nomear os aliados decisivos costuma ter outro nome: transição de poder.
Da redação


