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Banda da Bica 2026: onde Manaus me ensinou a ficar

Entre o balcão do Bar do Armando e o cortejo da Bica, a cidade aprende, ano após ano, a não se esquecer de si

Por Dora Tupinambá (*)

Há lugares que a gente não frequenta — a gente pertence.

A Banda da Bica é assim comigo. E o Bar do Armando também.

Quando a Banda da Bica sai em 2026, ela não inaugura um carnaval. Ela reabre uma memória coletiva. Desce pelas ruas do Centro Histórico lembrando à cidade que alegria também é raiz, que festa também é permanência. A Banda da Bica não se explica: se vive.

Eu a vivi desde antes de saber que estava vivendo.

Tudo isso acontecia ali, na Rua 10 de Julho, vizinha ao Largo de São Sebastião, à Igreja de São Sebastião, ao majestoso Teatro Amazonas e ao Monumento da Abertura dos Portos às Nações Amigas. Era naquele quarteirão que fé, arte, política e encontro se misturavam, e onde a Banda da Bica aprenderia a existir como extensão natural da rua e da vida.

A rua como casa, a casa como abrigo

Morei de favor, ainda menina, na casa da minha parenta Clemer Vasconcelos, madrinha da minha mãe. Modista famosa em Manaus, mulher de mãos firmes e generosas. Ali, minha mãe fazia trabalho doméstico para criar a mim e ao meu irmão Aldo. Nunca houve dívida, só gratidão. Foi Clemer quem abriu caminhos — inclusive quando conseguiu para mim uma bolsa no Colégio Brasileiro, onde estudei a quinta série do antigo ensino médio, quando colégio particular era quase um privilégio inalcançável.

Daquele endereço, eu passava repetidas vezes em frente ao Bar do Armando. Às vezes apressada, às vezes só observando. O mesmo caminho que me levava à Igreja de São Sebastião, onde buscava a benção de frei Fulgêncio quando ele passava em frente à casa. A fé, a rua e a cidade sempre dividiram o mesmo quarteirão.

Do passar ao ficar

Foi depois, já jornalista, formada pela Universidade Federal do Amazonas, que deixei de apenas passar em frente ao Bar do Armando. Passei a entrar. E quem entra ali nunca entra só.

Sem falsa modéstia: comi muito XPernil, bebi muita cerveja gelada — mas, acima de tudo, aprendi a escutar Manaus. O Bar do Armando sempre foi mais que um bar. Foi trincheira, confessionário, assembleia informal da cidade.

Dizia-se — e não era exagero — que qualquer problema de fim de semana se resolvia ali. Sempre havia um advogado, um juiz, um delegado, um assistente social e um jornalista. A cidade sentava à mesa, discordava, ria, chorava, e seguia.

Dona Lurdes e o cuidado que não se aposenta

E havia dona Lurdes. Sempre ela.

Toda vez que eu chegava, vinha a pergunta que não envelhece:

“Como está tua vó? E tua mãe, estão bem? Não te demoras.”

Pouco importava que eu já fosse Auxiliadora de Araújo Jorge Tupinambá, casada com Guará Tupinambá, mãe de Natália e Lívio — e, depois, também do Luan, meu caçulinha, que cresceu ouvindo essas histórias e me acompanhou muitas vezes àquele balcão.

Dona Lurdes me ralhou inúmeras vezes:

“Está na hora de ires.”

Não era censura. Era zelo.

Era a cidade cuidando de quem faz parte dela.

A Banda da Bica como continuidade

Por isso, ver a filha do Armando assumir o comando desse empreendimento que encanta intelectuais, turistas e a comunidade amazonense me enche de contentamento. Porque a Banda da Bica só existe porque o Bar do Armando existe. E o Bar do Armando só existe porque soube permanecer humano.

É a sucessão que não rompe.

É a tradição que não se fossiliza.

É a alegria que se transmite sem perder o tom.

E não posso deixar de lembrar de Domitila, nossa eterna rainha. Domitila era daquelas presenças que não pedem licença. Como a Banda da Bica, ela chegava e a cidade se reorganizava ao redor.

Programação – Banda da Bica 2026

A Banda da Bica mantém em 2026 sua essência: simples, democrática e profundamente manauara.

📍 Concentração: em frente ao Bar do Armando, na Bica

🎭 Cortejo: pelas ruas do Centro Histórico

📅 Data: sábado de carnaval

🎶 Trilha: marchinhas, irreverência, fantasias livres e encontros improváveis

👥 Público: moradores do Centro, artistas, intelectuais, turistas e gerações que se reconhecem

📝 Os horários e detalhes operacionais são divulgados pela organização, preservando o espírito espontâneo que sempre definiu a Banda da Bica.

Onde a cidade não se perde

Quando a Banda da Bica sai, Manaus não está apenas brincando carnaval.

Está se reconhecendo.

E enquanto houver um balcão onde alguém pergunta pela tua mãe, pela tua vó, pela tua história — a cidade seguirá inteira.

Porque pertencimento é isso: um lugar que sabe o teu nome e não te apressa a ir embora.

(*) Dora Tupinambá é o meu nome profissional criado pelo jornalista Milton Cordeiro, baluarte do jornalismo baré, durante sua passagem pela Rede Amazônica de Televisão.

Essa… é outra história.

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